domingo, 10 de agosto de 2014

12 de fevereiro - de Puerto Quijarro a Santa Cruz de la Sierra

Acordei cedo pra seguir viagem até Santa Cruz de la Sierra. Tomei um café da manhã razoável e fui pegar informações com a proprietária do hotel, Doña Blanca. Ela me indicou um "surtidor" -- posto de gasolina -- ali perto que vendia combustível para estrangeiros, mas me explicou que o preço de abastecimento para veículos gringos era de 8,90 bolivianos -- uns R$ 3,00 -- enquanto o preço para veículos locais era de 3,80 bolivianos -- R$ 1,30, mais ou menos.

Ora, mas que filhos da puta, esses bolivianos, né? Na verdade não. Isso acontece pra desencorajar os brasileiros, chilenos e peruanos de entrarem na Bolívia e comprarem o combustível para revender em seus países. Como a Bolívia não é um grande produtor, boa parte do combustível é importado e repassado para a população com subsídios do governo. É comum faltar combustível nos postos, e qualquer consumo acima do normal pode fazer com que algumas localidades fiquem sem combustível por períodos de até uma semana!

Doña Blanca me ensinou a não manter o dinheiro todo junto e separar uma grana pra propina, pois os policiais fatalmente me pediriam uma grana em algum "peaje" -- pedágio -- mais à frente. Também me deu um cartão com seus telefones e disse que caso eu tivesse algum problema entre Quijarro e Santa Cruz, que ligasse pra ela, pois tinha amigos que poderiam me acudir. Cara, a D. Blanca foi um amor!

Fui até o posto e, para minha surpresa, havia um policial fiscalizando os abastecimentos. A coisa era séria! Abasteceram, eu paguei o preço de gringo e segui viagem por uma estrada absurdamente vazia.

-- mano, eu tô no meio da rodovia tirando foto, tem noção? --

Tão vazia que dava pra parar a moto e ir até o meio da pista pra tirar fotos. É sério, cheguei a ficar mais de 20 minutos sem cruzar com outro veículo. "Se der alguma zebra com a moto aqui eu tô enrolado".

-- praticamente uma reta só --

Mas de vez em quando eu cruzava com uns viajantes diferentes.

-- olha o sossego do burrinho... --

-- até olhou pra câmera --

A estrada da fronteira até Santa Cruz de la Sierra é surpreendentemente muito boa. Apesar de ser pista simples, ela é bem conservada, possui acostamento asfaltado em quase toda a sua extensão e é bem sinalizada também.

-- imaginava uma estrada zuada, mas... --

E a quantidade de borboletas e gafanhotos que eu matei na estrada... Nunca vi tanta borboleta voando junta. Fotografei algumas na beira da estrada.

-- ficou muita borboleta na minha jaqueta... --

No geral, é um percurso tranquilo, quase todo em linha reta, e conforme vamos nos distanciando da fronteira, as planícies do pantanal vão dando lugar a formações rochosas mais densas e a vegetação vai voltando e ficar semelhante ao nosso cerrado.



Nove horas e 640 quilômetros depois, cheguei em Santa Cruz de la Sierra. A cidade é grande -- é a maior da Bolívia -- com quase dois milhões de habitantes. Cheguei ao centro da cidade por volta das 19 horas e descobri que nem todas as ruas têm placas com nomes, o que me obrigou a pedir algumas informações. Felizmente, ao contrário do que havia ouvido e lido algumas vezes, o povo "cruceño" me recebeu muito bem e foram muito solícitos na hora de me orientar.

-- Plaza 24 de Septiembre --

Fui até um hostel chamado Jodanga, superbem avaliado no Trip Advisor, localizado em um bairro próximo do centro o suficiente para poder ir a pé, mas longe o suficiente para ser um pouco mais calmo. Além disso, o hostel tinha estacionamento, o que era importantíssimo pra mim. Mas o Jodanga estava lotado...

Tive que apelar para o plano B: o Residencial Bolívar é um hostel localizado a duas quadras da Plaza 24 de Septiembre, o coração de Santa Cruz. Fui recebido pelo Ángel, um carinha sorridente e muito conversador. Ele me mostrou todo o hostel e disse que havia um estacionamento bom e barato a duas quadras dali. Me indicou um restaurante, me descolou um mapa do centro de Santa Cruz e me contou que o seu pai morou muitos anos em São Paulo.

Depois de todo esse bate papo, de guardar a moto no estacionamento, de tomar banho, de conversar um pouco com os companheiros de alojamento -- um japonês, uma lituana e um inglês -- e de guardar as minhas coisas, fui jantar no El Aljibe, um restaurante de comidas típicas da região de Santa Cruz.

O El Aljibe funciona em uma casa colonial espanhola -- muito comum nos centros de cidades mais antigas da Bolívia -- que é construída nas bordas do terreno com um pátio no meio.

-- esse é o pátio, com um poço ali no meio --

Comi um majao de pato, que é uma espécie de risoto feito com carne de pato, acompanhado de um ovo frito e bananas também fritas.

-- eis o majao --

Também tomei uma Real, uma cerveja fabricada na região de Santa Cruz, muito leve pro meu gosto, mas de boa qualidade.

-- a Real é o seguinte... --

O chef e dono do restaurante veio conversar comigo e, quando soube que eu era brasileiro, começou a falar em um português perfeito, com sotaque mineiro. Pensei que fosse um brasileiro, mas ele apenas havia morado em Minas por muito tempo. Ele me falou sobre vários pontos turísticos da região que eu nem imaginava que existiam, mas que não me arrisquei a ir desta vez, pois sairia demais do meu roteiro. Fica pra uma próxima vez!

De volta ao hostel, encontrei uma figurinha em cima da cadeira.

-- Simón --

Mas eu falo mais sobre isso no próximo post.

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