sexta-feira, 29 de agosto de 2014

14 de fevereiro - de Villa Tunari a Cochabamba

Acordei, arrumei minhas coisas, paguei o pernoite e saí rápido daquela mofolândia. Fui procurar um lugar pra tomar café da manhã -- nem isso aquele hotelzinho mequetrefe oferecia -- e achei no mercado público.

-- pitoresco --

Resolvi bater um rango no Snack da Doña Epifania, só por causa do nome. E dos preços também.

-- Toddy con leche, jugo de plátano y sandwich de huevo: R$ 2,50 --

Saí de Villa Tunari por volta das nove da manhã. Era o menor trecho, praticamente só subir a montanha. Mas também era o pior trecho. Estrada cheia de curvas, mal conservada, cheia de caminhões...

-- ruta nacional 4 --

-- pirambeira --

Saí de uma altitude de 400 metros e fui para 2800 metros. Fiquei um pouco ofegante no começo, mas nada de tonturas ou falta de ar. Resolvi parar em um dos muitos restaurantes que ofereciam truta fresca. A vista era bem legal.

-- esperando o almoço --

Comi uma "trucha al ajo" e tomei um suco de laranja Del Valle. O suco até que era bom, mas a truta... foi um dos melhores peixes que eu já provei! Aliás, o prato dava pra duas pessoas tranquilamente, e eu gastei menos de 15 Reais.

-- é bom! --

-- "trucha al ajo" é o que há --

Fiquei por ali, vendo se a neblina ia embora pra fazer umas fotos da lagoa, mas não rolou. Em compensação, o dono do restaurante veio bater papo comigo, contou que morou em São Paulo nos anos 70, pediu pra eu tomar cuidado quando chegasse à fronteira, disse que Machu Picchu era maravilhoso etc. e tals. Me ofereceu um chá de coca pra ajudar na digestão e eu achei horrível. Mas realmente caiu bem, a comida baixou rapidinho. E eu segui viagem por mais uma hora até chegar aos arredores de Cochabamba.

-- aí o sol resolveu aparecer... --

O trânsito em Cochabamba era tão zuado quanto em Santa Cruz. O povo buzina o tempo todo, avançam sinal vermelho, não usam seta... Bem pior do que qualquer cidade que eu conheço no Brasil. Mas motociclista que é lactobacilo vivo se adapta e logo eu já estava pilotando como um boliviano nato.

O hostel era um pouco afastado do centro e -- adivinha! -- as ruas do bairro não tinham placas com nome! Cheguei bem próximo do local e fiquei zanzando, tentando achar a American International School of Bolivia -- olha que chique. Parei pra pedir informação, mas o sujeito não conhecia nenhum hostel por ali. Entretanto, o cara saiu do seu caminho, voltou uma quadra comigo, entrou em uma vendinha, se informou e me indicou o local certo. Muito prestativo. =)

Cheguei no hostel Cabañas Las Lilas por volta das 14 horas. Cheguei junto com um pessoal que estava hospedado lá. "Buenas tardes!" "Buenas tardes! Vosotros saben si el dueño del hostal está en casa?" "Sorry, we don't speak spanish!" =/

Entrei com os gringos e achei uma empregada do hostel, que me informou que Don Alex chegaria no fim da tarde, mas que eu poderia guardar a moto e tomar um banho, se eu quisesse [e eu queria]. Quando saí do banho, fui recebido por esse carinha:

-- Locoto, o sheepdog 'mucho loco' --

Fiquei tirando fotos do Locoto e mandando mensagens pra minha Preta até a hora que Don Alex chegou. Um sujeito muito amável, atencioso, me mostrou o hostel inteiro, se colocou à disposição pra me indicar passeios pela cidade, conversou um pouco comigo e foi cuidar de deixar a churrasqueira no jeito pros gringos usarem.

-- churrasqueira de responsa --

Comprei uma Coca-Cola no bar do hostel, conversei um pouco com os gringos -- um escocês, uma irlandesa, um casal de ingleses e um casal de suecos -- assisti a um filme com legendas em espanhol e fui dormir. No outro dia eu conheceria melhor o hostel e a cidade de Cochabamba [além de lavar umas roupas].

terça-feira, 19 de agosto de 2014

13 de fevereiro - de Santa Cruz de la Sierra a Villa Tunari

Acordei no Residencial Bolívar e fui tomar um banho. No caminho da ducha, olha quem eu encontrei:

-- Simón de Bolívar --

Esse é o Simón, a mascote do hostel. Ele fica solto ali, subindo nas camas, nas mesas, nas redes, roubando comida dos hóspedes...

-- Simón vs. Sr. Kyo --

Dá uma certa pena do tucano, que tem as penas das asas cortadas pra não fugir, mas não deixa de ser interessante ver um bicho desses solto, zanzando pra lá e pra cá no hostel.

O Sr. Kyo é o senhor japonês da foto acima, que não fala uma palavra de espanhol e tava viajando sozinho pela América do Sul. Conversamos em um inglês improvável, mas deu certo. Aproveitei pra confirmar o significado da minha tattoo em kanji.

-- não, não é "pastel 1 Real" --

Parecia que o sol apareceria a qualquer momento ali no pátio interno do hostel, mas foi só ilusão.

-- o lugar é bacana, mas a galera troca ideia até altas horas --

No momento que eu coloquei o pé na rua começou a chover e não parou mais. Quando já estava saindo da cidade lembrei de uma coisa que, na Bolívia, é extremamente importante para o turista: abastecimento. O tanque já estava com menos de um quarto e eu não achava um posto de gasolina. Pedi informação, me indicaram um bairro mais à frente, mas eu não achava o "surtidor". Resolvi parar pra pedir informação em uma venda e a moça me indicou a oficina mecânica ao lado. Os caras vendiam gasolina do galão! Paguei um pouco mais caro que o preço normal, mas bem mais barato que o preço para estrangeiros, um ótimo negócio.

A estrada de Santa Cruz de La Sierra até Villa Tunari não é grande coisa: tem muitos trechos sem acostamento e alguns buracos, mas é toda pavimentada, tem poucas curvas e é praticamente plana na maior parte do percurso. Diria que é regular, sem grandes problemas. Na verdade, os problemas que eu enfrentei nesse trecho foram a chuva e os motoristas bolivianos. Se o cara sai pra ultrapassar e vê que vem vindo uma moto no sentido contrário, ele continua numa boa: a moto que saia pro acostamento!

-- chuva, chuvisco, chuvarada --

Aliás, poucas motos andam na pista, a maioria são motos chinesas que mal chegam aos 80 km/h. E os bolivianos não usam o "casco" -- como eles chamam o capacete. Mas alguém já tinha me dito que um gringo sem capacete é pretexto pra propina, então...

Parei pra almoçar na beira da estrada, em uma bodeguinha com telhadinho de sapê, à companhia do Chiquitito.

-- telhadinho --

-- Chiquitito --

Escolhi comer um "surubi con maní", que nada mais é que um peixe com mandioca. Mas a simplicidade do prato não demonstra o sabor. Tava bom demais! E essa tal de Pop Cola também não é nada mal, pra falar a verdade.

-- arroz, peixe, mandioca, Pop Cola --

Segui viagem, sempre debaixo de chuva, e fui vendo a vegetação de cerrado se transformar em mata tropical, com as árvores ficando cada vez maiores. Cheguei a Villa Tunari às quatro da tarde. É um vilarejo na beira do rio, uma espécie de estância turística onde o pessoal vai para pescar, entrar em contato com a natureza, fazer rafting, essas coisas.

-- cheguei --

Corri atrás de uma hospedagem, pois esse era o único lugar que eu não havia conseguido pesquisar nada na Internet. Me indicaram um lugar quase em frente à praça principal, chamado Hostel Bibosi, dizendo que lá havia wi-fi. O fato é que não era um hostel, não havia wi-fi e o lugar tinha um cheiro de mofo terrível, todo úmido, zoado demais. "Bom, pra passar só uma noite tá bom, vai", pensei.

-- vista do hostel --

Tomei um banho e fui dar uma volta, pra ver se descolava uma lan house e um lugar pra jantar. Fui a uma lan house que cobrava cerca de R$ 0,70 por duas horas. Falei com a minha Preta e depois fui comer um "pique macho" -- um ensopado muito saboroso de carne, salsicha, linguiça, ovos, batatas, tomates, e cebolas -- e tomar uma Huari. Um bom jantar por cerca de 15 Reais.

-- a melhor cerveja da viagem --

Voltei pro hostel que não era hostel, ignorei o cheiro de mofo e adormeci assistindo Los Simpsons.

domingo, 10 de agosto de 2014

12 de fevereiro - de Puerto Quijarro a Santa Cruz de la Sierra

Acordei cedo pra seguir viagem até Santa Cruz de la Sierra. Tomei um café da manhã razoável e fui pegar informações com a proprietária do hotel, Doña Blanca. Ela me indicou um "surtidor" -- posto de gasolina -- ali perto que vendia combustível para estrangeiros, mas me explicou que o preço de abastecimento para veículos gringos era de 8,90 bolivianos -- uns R$ 3,00 -- enquanto o preço para veículos locais era de 3,80 bolivianos -- R$ 1,30, mais ou menos.

Ora, mas que filhos da puta, esses bolivianos, né? Na verdade não. Isso acontece pra desencorajar os brasileiros, chilenos e peruanos de entrarem na Bolívia e comprarem o combustível para revender em seus países. Como a Bolívia não é um grande produtor, boa parte do combustível é importado e repassado para a população com subsídios do governo. É comum faltar combustível nos postos, e qualquer consumo acima do normal pode fazer com que algumas localidades fiquem sem combustível por períodos de até uma semana!

Doña Blanca me ensinou a não manter o dinheiro todo junto e separar uma grana pra propina, pois os policiais fatalmente me pediriam uma grana em algum "peaje" -- pedágio -- mais à frente. Também me deu um cartão com seus telefones e disse que caso eu tivesse algum problema entre Quijarro e Santa Cruz, que ligasse pra ela, pois tinha amigos que poderiam me acudir. Cara, a D. Blanca foi um amor!

Fui até o posto e, para minha surpresa, havia um policial fiscalizando os abastecimentos. A coisa era séria! Abasteceram, eu paguei o preço de gringo e segui viagem por uma estrada absurdamente vazia.

-- mano, eu tô no meio da rodovia tirando foto, tem noção? --

Tão vazia que dava pra parar a moto e ir até o meio da pista pra tirar fotos. É sério, cheguei a ficar mais de 20 minutos sem cruzar com outro veículo. "Se der alguma zebra com a moto aqui eu tô enrolado".

-- praticamente uma reta só --

Mas de vez em quando eu cruzava com uns viajantes diferentes.

-- olha o sossego do burrinho... --

-- até olhou pra câmera --

A estrada da fronteira até Santa Cruz de la Sierra é surpreendentemente muito boa. Apesar de ser pista simples, ela é bem conservada, possui acostamento asfaltado em quase toda a sua extensão e é bem sinalizada também.

-- imaginava uma estrada zuada, mas... --

E a quantidade de borboletas e gafanhotos que eu matei na estrada... Nunca vi tanta borboleta voando junta. Fotografei algumas na beira da estrada.

-- ficou muita borboleta na minha jaqueta... --

No geral, é um percurso tranquilo, quase todo em linha reta, e conforme vamos nos distanciando da fronteira, as planícies do pantanal vão dando lugar a formações rochosas mais densas e a vegetação vai voltando e ficar semelhante ao nosso cerrado.



Nove horas e 640 quilômetros depois, cheguei em Santa Cruz de la Sierra. A cidade é grande -- é a maior da Bolívia -- com quase dois milhões de habitantes. Cheguei ao centro da cidade por volta das 19 horas e descobri que nem todas as ruas têm placas com nomes, o que me obrigou a pedir algumas informações. Felizmente, ao contrário do que havia ouvido e lido algumas vezes, o povo "cruceño" me recebeu muito bem e foram muito solícitos na hora de me orientar.

-- Plaza 24 de Septiembre --

Fui até um hostel chamado Jodanga, superbem avaliado no Trip Advisor, localizado em um bairro próximo do centro o suficiente para poder ir a pé, mas longe o suficiente para ser um pouco mais calmo. Além disso, o hostel tinha estacionamento, o que era importantíssimo pra mim. Mas o Jodanga estava lotado...

Tive que apelar para o plano B: o Residencial Bolívar é um hostel localizado a duas quadras da Plaza 24 de Septiembre, o coração de Santa Cruz. Fui recebido pelo Ángel, um carinha sorridente e muito conversador. Ele me mostrou todo o hostel e disse que havia um estacionamento bom e barato a duas quadras dali. Me indicou um restaurante, me descolou um mapa do centro de Santa Cruz e me contou que o seu pai morou muitos anos em São Paulo.

Depois de todo esse bate papo, de guardar a moto no estacionamento, de tomar banho, de conversar um pouco com os companheiros de alojamento -- um japonês, uma lituana e um inglês -- e de guardar as minhas coisas, fui jantar no El Aljibe, um restaurante de comidas típicas da região de Santa Cruz.

O El Aljibe funciona em uma casa colonial espanhola -- muito comum nos centros de cidades mais antigas da Bolívia -- que é construída nas bordas do terreno com um pátio no meio.

-- esse é o pátio, com um poço ali no meio --

Comi um majao de pato, que é uma espécie de risoto feito com carne de pato, acompanhado de um ovo frito e bananas também fritas.

-- eis o majao --

Também tomei uma Real, uma cerveja fabricada na região de Santa Cruz, muito leve pro meu gosto, mas de boa qualidade.

-- a Real é o seguinte... --

O chef e dono do restaurante veio conversar comigo e, quando soube que eu era brasileiro, começou a falar em um português perfeito, com sotaque mineiro. Pensei que fosse um brasileiro, mas ele apenas havia morado em Minas por muito tempo. Ele me falou sobre vários pontos turísticos da região que eu nem imaginava que existiam, mas que não me arrisquei a ir desta vez, pois sairia demais do meu roteiro. Fica pra uma próxima vez!

De volta ao hostel, encontrei uma figurinha em cima da cadeira.

-- Simón --

Mas eu falo mais sobre isso no próximo post.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

11 de fevereiro - de Campo Grande a Puerto Quijarro

Acordei às 7h, tomei um café da manhã de campeão e recebi alguns conselhos da D. Leda, que incluía eu desistir da ideia de atravessar a Bolívia de moto. É muito perigoso, eu deveria deixar a moto em Corumbá, comprar um pacote de viagens para ir até Machu Picchu e... Não, D. Leda, obrigado pela preocupação, mas eu vou é de moto mesmo! =D

Por volta das 8h30 eu segui viagem rumo ao Pantanal. Ali pelas 11h eu cheguei em Aquidauana, conhecida como o Portal do Pantanal.

-- a paisagem muda muito daqui pra frente --

Toquei em frente, até a estrada começar a ficar ruim. Começou a demorar demais pra chegar, eu calculava chegar em Corumbá por volta das 13h, mas o rio Paraguai não chegava nunca. Finalmente, às duas da tarde eu cheguei à ponte, um cenário incrível, bem a cara do pantanal. Aliás, essa ponte é o melhor lugar pra tirar fotos, mas não há como parar no meio e eu terminei me satisfazendo em guardar tudo na memória.

-- eu achava que a região do pantanal fosse feita só planícies --

Cheguei em Corumbá pouco antes das três da tarde e fui direto procurar o posto da Anvisa pra emitir meu Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia. São poucos os lugares que emitem esse certificado, e como Corumbá estava no caminho, optei por emitir por lá mesmo.

-- chegando em Corumbá --

Como as burocracias da Anvisa foram relativamente rápidas, fui pra fronteira, bati o carimbo de saída no lado brasileiro e fui pra Puerto Suarez carimbar a entrada na Bolívia.

Aí, o policial que fazia a segurança da aduana viu a minha moto e ficou me pedindo pra dar uma volta. Até que ele disse que se eu deixasse ele dar um rolezinho, ele me passaria na frente do pessoal ali pra carimbar meu passaporte. Ele foi. E eu fiquei com o c**inho na mão.

E eu tava "puta que o pariu, bem que a D. Leda falou, esse maluco vai sumir com a minha moto, essa funcional que ele deixou é falsa, o que eu faço agora..." e de repente eu escuto "que máquina, hã!" Era ele, que já tinha voltado e deixado a moto no jeito pro pessoal da aduana registrar a entrada dela no país.

O maluco agilizou minha entrada do jeitinho que prometeu, me desejou boa viagem, me deu dicas sobre compra de gasolina e a verdade é que todo mundo ali na fronteira foi muito solícito, bem diferente do que muitos vinham dizendo.

Da aduana eu precisava ir até a polícia da cidade de Puerto Quijarro -- que é colada ali na fronteira -- para que eles emitissem uma autorização para rodar com a moto dentro da Bolívia. Fui superbem recebido ali também, mas me cobraram 50 Bolivianos -- uns 17 Reais -- por um documento que deveria ser gratuito. Foi a primeira propina da viagem. Pelo menos deixaram meu nome mais "espanholado".

-- foi só entrar na Bolívia que meu sobrenome virou López --

Saí da polícia e fui pro hotel Jardin de Bibosi. O único hostel na região é em Corumbá, e ele era mais caro do que o hotel em Puerto Quijarro -- 40 e 33 Reais, respectivamente. No hotel fui recebido pela Doña Blanca, uma senhora muito simpática e solícita. Pra me poupar tempo no dia seguinte, ela me trocou duzentos dólares na cotação oficial -- 1 dólar por 6,90 bolivianos --, bem mais vantajoso que a cotação dos cambistas.

Aproveitei que ainda era cedo -- umas cinco da tarde -- e fui lubrificar e esticar a corrente da motoca. Depois do banho eu fui bater aquele rango, e comi um silpancho cochabambino, que nada mais é do que arroz, bife à milanesa, ovo frito, batatas fritas e vinagrete -- tudo muito parecido com a nossa cozinha caseira. Também provei uma Paceña, cerveja fabricada na região de La Paz, uma pilsen muito boa por sinal.

-- é boa mesmo, põe as brahmas e antarcticas no chinelo --

Na nossa moeda, esse rango com a cerveja e uma garrafa de dois litros de água saiu pela bagatela de 12 Reais. Dormi satisfeito.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

10 de fevereiro - de Bauru a Campo Grande

Só adormeci de manhã e terminei atrasando bem minha saída. Parti só às 11h da manhã, rumo a Guararapes/SP, onde eu deveria encontrar um amigo dos tempos de Colégio Técnico, o Henrique. O tempo de um almoço deu para lembrar de uma coisa importante: uma boa conversa não depende de tempo, mas da qualidade do conteúdo.

-- valew pelo papo, Henrique! --

Segui para Mato Grosso do Sul com o solzão queimando os pulsos -- pois minha jaqueta e as minhas luvas deixavam um espaço aberto -- e parei em Três Lagoas para descansar um pouco, tomar água, essas coisas.

-- repara na marca no pulso --

-- Três Lagoas sem foco --

De lá, segui viagem, parando um pouquinho, descansando um pouquinho, coisa e tal. E mesmo assim, cheguei à "Capital Morena" às 21h -- bendito fuso horário de verão!

-- parada pra beber água clara [tá parei!] --

Campo Grande é uma cidade grande, bonita, com avenidas amplas e uma gente muito simpática. Você para pra pedir informações e o pessoal vem sorrindo conversar com você, pergunta de onde você é, pra onde tá indo, te indica lugares pra conhecer... muito legal. Às 22h eu cheguei ao Hostel Vitória Régia, um lugar de instalações muito simples, mas muito limpo e organizado.

-- vista do dormitório --

-- vista do dormitório --

A Dona Leda, a proprietária do hostel, é muito simpática e atenciosa, o que se reflete no comportamento de toda a equipe. O pessoal se ofereceu pra pedir um lanche pra mim enquanto eu tomava banho. Depois do lanche [o pior bauru que eu já comi, diga-se de passagem] eu fui dormir, porque no dia seguinte havia mais estrada pra vencer.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A véspera

Arrumar as coisas pra viagem foi treta. Afinal, ir de moto de Bauru a Machu Picchu se hospedando em quartos coletivos de hostels exigia uma certa agilidade na hora de andar pra lá e pra cá com as coisas nas costas.

-- só aquela mochilinha vermelha --

Resolvi ir só com uma mochila de ataque nas costas e, para isso, precisei abrir mão de muita coisa. Terminei levando só o essencial:

- uma pasta com o passaporte, certificado internacional de vacinação, permissão internacional para dirigir, mapas e anotações de endereços de oficinas Honda, embaixadas e hostels;
- cinco camisetas, uma bermuda, um short, duas calças, algumas meias e cuecas, um tênis, além de jaqueta e luvas de couro, que eu estava sempre usando;
- capa de chuva e bota impermeável;
- duas chaves inglesas, kit de ferramentas da moto, lubrificante para corrente e reparador de pneus em spray;
- escova de dentes, estojo para lentes de contato, ReNu, desodorante, sabonete e toalha;
- o livro "A Arte da Guerra", de Nicolau Maquiavel;
- uma câmera fotográfica Casio Exilim EX-Z8 e um celular Motorola Defy.

Belessa, com a mochila pronta, era só ir dormir. E quem disse que eu conseguia?

Fevereiro chove pra ca***ho!

A galera evita um pouco viajar pros Andes entre dezembro e março, porque é a época que mais chove naquela região. A chuva promove o que eles chamam de "derrumbes", que nada mais são que deslizamentos de encostas das montanhas e que causam acidentes ou, na melhor das hipóteses, atrasos consideráveis.

-- pra chover granizo, imagina o frio... --

Além disso, a trilha inca é fechada durante esta época, para preservar tanto a própria trilha quanto os turistas e guias.

Agradeço a Deus por não ter dado ouvidos aos experts. Mesmo no verão, eu passei um puta frio nas estradas entre Cochabamba, La Paz e Cusco. Imagina a treta no inverno...

Além disso, a trilha inca dura três ou quatro dias, e depois de pilotar de Bauru até Cusco, não ia passar esse tempo todo andando até a "Cidade Sagrada", né?

Trip Advisor, Google Maps, fóruns

Em outubro eu decidi que ia. E iria em fevereiro. Tinha quatro meses para planejar o caminho, as paradas, os pernoites, a alimentação... e principalmente, tinha quatro meses pra juntar dinheiro suficiente pra me manter nessa aventura.

E aqui vão as primeiras dicas pra quem tá afim de viajar por aí sozinho: acesse fóruns de mochileiros, de motociclistas e afins. Troque ideia com quem já esteve por lá. Estude os mapas e as rotas. E use o Trip Advisor para escolher seus pernoites.

Em quatro meses de estudo e planejamento, descobri cinco coisas importantes:

1. você não precisa de passaporte para entrar na Bolívia ou no Peru, mas apresentando o passaporte como documento, a chance de você ser achacado é menor [e você ainda pode carimbá-lo em Machu Picchu!];

Apolo Creed e Sandy Cheeks
-- passaporte do Lopito by Apollo Creed e Sandy Cheeks --

2. é exigida uma vacina contra febre amarela comprovada por um certificado internacional de vacinação e profilaxia para entrar na Bolívia;

3. existe uma Permissão Internacional para Dirigir [PID], que me custou 225 mangos na ocasião;

4. mesmo que você tenha um cartão de crédito internacional, você precisa avisar a operadora para que ela libere o uso fora do país;

5. é melhor viajar com dólares e comprar moeda local em casas de câmbio ou hotéis [cambistas são fria]. 

Anotei o endereço, o telefone e o e-mail das embaixadas do Brasil em Lima e em La Paz; escolhi dois a três hostels bem rankeados no Trip Advisor por cidade; descobri onde havia concessionárias Honda no percurso; e pesquisei o que tinha de legal pra conhecer no caminho. Em fevereiro, tinha um plano de viagem que me ajudou muito a resolver os problemas que apareceram durante o percurso, como veremos mais pra frente.

"Preta, vou pra Machu Picchu de moto!"

Nem preciso dizer que a Denise achou isso uma brincadeira de mau gosto. Mas não colocou obstáculos para o meu sonho, mesmo sem entender completamente as minhas motivações. Só posso agradecer pela confiança e me desculpar pelos 23 dias de ausência. Te amo, Preta!

Férias? O que é isso?

De repente, me vi em uma situação da qual já havia me desacostumado: minhas férias estavam vencendo e eu ficaria 30 dias de bobeira. Minha Preta não poderia tirar férias e eu ficaria mofando em casa, provavelmente jogando Playstation sozinho ou assistindo a reprises de filmes da Sessão da Tarde.

Aff!
-- ia ser bem nesse naipe --

Não, mano! Isso não são férias! Vamos pensar. Meu sonho de infância era viajar de moto, e eu tinha uma moto. Quando adolescente eu queria ir de trem pra Machu Picchu, mas eu também poderia ir de moto, certo? Que tal matar dois coelhos com... não, vamos deixar os coelhos em paz dessa vez.

Machu Picchu

Quando eu era adolescente, tive que fazer um trabalho escolar falando sobre civilizações pré-colombianas e botei na cabeça que eu tinha que ir até os incas -– ou o que sobrou deles.

Sucateô!
-- é, mano, sucateô! --

A ideia inicial era ir de trem, saindo de Bauru, passando pela Bolívia e chegando ao Peru até o pé da montanha onde está a "Cidade Sagrada". Mas as ferrovias foram deixando de ser viáveis, eu fui deixando de ser adolescente e o meu sonho foi dando lugar a uma realidade de muito trabalho e alguns anos sem férias.

CHiPs

Quando eu era moleque, pirava nas motonas dos oficiais John Baker e Frank Poncherello, do seriado CHiPs.

Pega essas motocas!
-- viajar com uma dessas deve ser loko --

Não lembro de um episódio sequer, só lembro dos caras patrulhando as rodovias com aquelas motocas antigas e de pensar "quando eu crescer eu vou viajar de moto". Cresci. E até viajei de moto. Mas sempre viagens curtas, e poucas vezes por lazer. O que eu ia fazer a respeito?