-- sente o drama --
Mesmo sabendo que hoje em dia a ligação entre La Cumbre [4000 metros de altitude] e Coroico [1500 metros] é feita por uma estrada nova, asfaltada e bem sinalizada, e que a Ruta de La Muerte se tornou apenas uma atração turística [é cheia de ciclistas fazendo downhill], achei bom dar uma perguntada pro pessoal que tinha descido um dia antes. A principal informação que me deram era que tinha muitos ônibus e vans que desciam para dar suporte aos ciclistas e que a mão de quem desce é pro lado do abismo.
Ouvi as dicas, corri na Honda, peguei a motoca, voltei pra Casa de Ciclistas, arrumei minha mochila, me despedi do pessoal e saí rumo a La Cumbre, que é um ponto alto nos arredores de La Paz.
-- La Paz ficando pra trás: repare no boneco
pendurado no poste e leia a notinha no fim do post --
pendurado no poste e leia a notinha no fim do post --
Pra minha surpresa, nenhum posto de gasolina dentro de La Paz estava disposto a abastecer veículos estrangeiros. Nem em galões. E o combustível não daria pra chegar em Coroico. E no último posto antes de chegar a La Cumbre, o dono do posto me informou que assim que a estrada começasse a descer, depois do túnel, antes da entrada pra Ruta de la Muerte, havia um posto que não tinha fiscalização nenhuma, que lá eu conseguiria abastecer.
-- !!! --
Um pouco depois de passar pela placa da lhama, cheguei a La Cumbre e fiquei mais tranquilo. Afinal, daqui pra frente era descida toda vida, e se acabasse a gasolina eu ia na banguela até achar o posto que o tiozinho me disse. Desci um pedaço e me deparei com uma fila de carros. Fui passando com a moto e, quando cheguei mais embaixo...
-- um derrumbe! --
Uma porra de um deslizamento fechou a estrada. Parei a moto lá na frente da fila de carros e fiquei por ali, tentando saber quanto tempo demoraria pra abrirem passagem. Pensei em dar meia volta e ir embora pra Copacabana, deixar pra ir a Coroico na volta, mas me distraí prestando atenção no povo conversando, na paisagem, nas pessoas que vinham puxar papo, perguntar da moto. Então comecei a conversar com um rapaz que estava voltando pra Yolosa, uma cidade vizinha a Coroico. Seu nome é Ariel. Ele me contou como a vida do boliviano é difícil e como era ainda mais difícil antes dos governos de Evo Moralez. Contou como a população indígena era grata a esse governo e como as coisas melhoraram, apesar de ainda estarem longe de estar boas.
-- espero que o Ariel (à direita) não se chateie com a publicação da foto --
Ariel começou a estudar engenharia agrícola, mas precisou largar os estudos para ajudar seus pais na lavoura. E ele fala disso com a mesma serenidade que conta quando viu o Ronaldinho quase morrendo em campo por causa da altitude em La Paz [The Strongest 1 x 2 Atlético MG, Libertadores de 2013]. Conversamos animadamente por mais de duas horas, até que ouvimos um pessoal comemorando: haviam aberto a passagem. Nos despedimos, subi na moto e atolei na passagem. Os trabalhadores vieram de pronto, quase carregaram a moto no braço e me ajudaram a sair daquele mar de lama. Daí pra frente, foi abastecer e seguir uma viagem foi tranquila.
-- amanhã, se Deus quiser! --
Resolvi que já estava tarde para descer a Ruta de la Muerte, principalmente sabendo que na descida eu teria que ficar do lado do abismo. Segui até Coroico pela via asfaltada, uma estrada muito boa por sinal. E com paisagens bacanas, também.
-- cara, eu parei umas 50 vezes em 50 km, no mínimo --
-- tinha uns platôs pra entrar, descansar e fotografar --
Aí, de repente, eu vi uma cidadezinha incrustada na montanha, lá embaixo. Só podia ser Coroico, e ela ainda tava longe. Dei uma acelerada pra não chegar muito tarde.
-- vish, vou chegar à noite... --
Cheguei no Hostel Chawi, em Coroico, era umas sete da noite. Subi uma escadinha estreita, abri o portão, entrei e depois de alguns passos, um cachorrão veio vindo em minha direção. Parei, ele me cheirou e ficou de boa. Fui até a porta, umas hóspedes foram chamar o proprietário pra me receber. O Inti é um cara muito gentil, me explicou que havia um portão maior nos fundos, pra eu ir com a moto até ali que ele ia lá abrir. Guardei a moto, e vinha conversando com o Inti quando de repente -- NHAC! -- o cachorro mordeu minha capa de chuva, na traição, e fez um rasgo grande no joelho. Inti se desculpou, me arrumou umas fitas adesivas pra ver se eu conseguia arrumar e ficou tudo bem.
Tomei um banho -- até aqui, a melhor ducha da Bolívia! -- e depois o Inti me indicou uma lan house e um restaurante bom. Fui à lan house com uma garota canadense que ia começar um intercâmbio em Lima, no Peru. Depois de falar com a minha Preta, fomos ao restaurante, sentamos com uma suíça que mora em Brasília e sua amiga peruana. Conversamos bastante em português, inglês, espanhol, comemos um espaguete alfredo -- muito bom, por sinal -- e voltamos tarde pro hostel, dormir que o dia seguinte seria loko demais!
NOTA PARA CURIOSOS:
REPARE NA PRIMEIRA FOTO DO POST. TEM UM BONECO PENDURADO NO POSTE PELO PESCOÇO. ISSO É COMUM NA BOLÍVIA, PRINCIPALMENTE EM PERIFERIAS OU EM VILAREJOS. É UM AVISO À BANDIDAGEM: SE APRONTAR AQUI, NÓS DAMOS UM JEITO SEM A POLÍCIA. UM DOS CARAS LÁ NA CASA DE CICLISTAS ME CONTOU QUE VIU ACONTECER UM LINCHAMENTO EM UMA CIDADEZINHA PORQUE O SUJEITO TINHA FEITO ALGUMA COISA RELACIONADA A PEDOFILIA. ELES TÊM UMA ESPÉCIE DE JURI POPULAR, JULGAM O CARA NO MEIO DA RUA E, SE CONCLUÍREM QUE ELE É CULPADO...
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