Arrumei a mochila, tomei café, botei a capa de chuva, me despedi do pessoal e parti. Duas ruas pra frente, me deparo com um trem:
-- sério isso? kkkkk! --
Cheguei à rodovia em pouco mais de 20 minutos e, passando em um pedágio, um policial me parou. Pensei que ia ter que pagar "propinita", mas ele só perguntou de onde eu era e pra onde eu ia. "La Paz", respondi. Me recomendou cuidado na montanha e desejou boa sorte.
Logo à frente começou a subida. Algumas curvas à frente e quase não dava pra ver Cochabamba lá atrás.
-- começou a subida. de novo. --
-- higher and higher --
-- La Paz, aí vou eu! --
-- mais alto... --
-- o ponto mais alto da viagem --
Quando cheguei ao altiplano, comecei a ver as primeiras cholas pastoreando lhamas. Uma delas me abordou para pedir dinheiro pelas fotos, falando em quechua. Não falo quechua, mas a linguagem da esmola, ao que parece, é universal. Dei as moedas que eu tinha no bolso -- uns 2 bolivianos ou R$ 0,30 -- e ela ficou toda sorridente. A pobreza é uma grande merda.
-- lhamas --
-- e lhaminhas --
Se você prestar atenção, também pode encontrar umas ruínas da época colonial à beira da estrada.
-- quase passei batido --
Algumas cidadezinhas beirando a estrada -- em uma delas eu almocei um sanduba muito suspeito mas igualmente saboroso -- e quando eu achei que nada mais aconteceria até chegar a La Paz, eis que vem o granizo.
-- quase fiquei louco com essas pedrinhas batendo no capacete --
Mas logo em seguida, comecei a ver os picos nevados lá no horizonte. La Paz estava próxima!
-- fotinho ficou uma bosta... --
Cheguei em El Alto, que é uma cidade grudada em La Paz. Cheguei umas 17 horas, disputando espaço com um mar de vans que não respeitam nada e nem ninguém. Nos cruzamentos, além dos semáforos -- praticamente itens decorativos -- haviam uns guardinhas de trânsito apitando de maneira frenética, mas sem grandes resultados. Quem manda no trânsito em La Paz são as vans.
No semáforos as vans paravam por algum tempo, o suficiente pras pessoas descerem e subirem em todas as faixas, o que desorganizava ainda mais aquele caos, se é que isso é possível. Aprendi que nesses momentos, você pode bater na janela do motorista e pedir informação, que eles dão paciente e solicitamente.
18.432 buzinadas depois -- cara, como boliviano buzina! -- cheguei ao centro de La Paz, que é como o centro de qualquer grande cidade que eu já tinha visto, mas tem ladeiras pra todo canto. Dali era fácil chegar à Casa de Ciclistas, em uma ruazinha estreita de construções antigas.
Toquei a campainha e saiu uma baixinha de cabelos pretos:
- Hola.
- Hola. Mi nombre es Daniel, estoy procurando la Casa de Ciclistas.
- Ah, hola! Cristián dejó las llabes conmigo! De onde eres, Daniel?
- De Brasil.
- Ah, então vamos falar em português, cara!
Ué, essa mina é brasileira? Não, a Fernanda é uma chilena apaixonada pelo Brasil. Aprendeu a falar um português quase sem sotaque e cheio de gírias apenas ouvindo músicas brasileiras. Inclusive, ela conhece muito mais de música brasileira do que a maioria dos brasileiros que eu conheço!
Peguei as chaves, guardei a moto na garagem e subi.
-- predinho caidinho, eu sei --
O apê era um duplexzinho das antigas, com dois quartos. Havia um francês passando um ano sabático longe da França [pra repensar a vida, segundo ele], três chilenos pedalando do Chile ao Equador [entre eles, a Fernanda], dois alemães pedalando pelo mundo [há cinco anos longe da Alemanha] e uma canadense que saiu de bicicleta do Ushuaia [sul da Argentina] em direção ao Alaska, onde ela mora. Ir de motoca de Bauru até Machu Picchu me pareceu quase uma ida até a padaria, por um momento.
Tomei um banhão, saí pra comer e entrei em um café ali perto. Pedi uma porção de cuñape, que é muito parecido com nosso pão de queijo, um pouco mais seco porque não vai óleo na receita, segundo me contou o garçom. Tomei uma Coca e, de sobremesa, pedi uma huminta, que nada mais é do que a nossa boa e velha pamonha de Piracicaba. Tomei um cafezinho ralo antes de ir embora e paguei cerca de 6 Reais nessa jantinha.
Voltando pro apê, me diverti com o tuning boliviano, conversei um pouco com os gringos e fui dormir um pouco, que já tava tarde. Ou era efeito da altitude, não sei bem.
-- "as boliviana pira" --




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